segunda-feira, 30 de abril de 2012

... Desconfiança e Suspeitas ...


_ Nossa amor, o que aconteceu?
_ Oi? Como assim? 
_ Sei lá Paula, você demorou bastante no banheiro e agora voltou com cara de quem comeu e não gostou! 
_ Hãn... Não, não amor. Não foi nada! 
_ Não me parece que não foi nada. - realmente, não me parecia nem mesmo um pouquinho que não havia acontecido nada - Assim que você saiu, aquela Patrícia saiu atrás. Devo me preocupar com isso, Paula? 
_ Se preocupar com o que amor? Não tem que se preocupar com nada não! Será que podemos ir embora, na verdade acho que não estou me sentindo muito bem. 

Não, eu não acreditei nada naquela conversa de estar passando mal. Se tem uma coisa que a Paula não sabe fazer muito bem nessa vida é mentir, e sem dúvida, não estava me dizendo a verdade, ou pelo menos, não toda a verdade. E sim, isso me preocupava, e muito! Porém, eu não queria continuar aquela conversa ali. Não era hora nem lugar, e eu de verdade não gostava do fato de ter uma platéia nos observando.

_ Dany, avisa a Duda que não pudemos mesmo ficar hoje para esperar a inauguração. 

_ Porquê Lêêêêêê? Fiquem ai, provavelmente agora não demore muito mais para que ela inaugure logo esse tão esperado lounge. 

_ Eu sei Dã, mas, hãn... a Paula não esta se sentindo bem, então vou leva-la para casa.
_ Bom, sendo assim, tudo bem! - Dany se aproximou de mim, o suficiente para sussurrar ao meu ouvido, a fim de que as meninas não nos escutassem - Esta tudo bem entre vocês? O Clima parece meio tenso no ar. Impressão minha?
_ Esta tudo bem sim Dã. Qualquer coisa, te ligo depois. Mas, não se preocupe, esta realmente tudo bem - disse, gastando um sorriso pouco convincente, ainda mais tratando-se de Danielle.

Nos despedimos das garotas e saímos em direção ao estacionamento. Já estávamos entrando nas primeiras horas da madrugada, e como de costume nessa época do ano, o céu de São Paulo honrava o apelido de "Terra da Garoa" e fazia cair sob nossas cabeças uma fina chuva, quase imperceptível. Apesar de eu não saber exatamente do que estava desconfiando, e nem mesmo se estava desconfiando de alguma coisa, aquelas pequenas gotinhas caindo sob minha pele quente, me ajudaram a manter a calma e a controlar melhor minha respiração, que no momento, mesmo sem entender exatamente o porque, não estava lá muito normal. 

Olhei para Paula, e tenho que admitir que ela não estava com uma aparência das melhores. Estava meio pálida e assim que chegamos onde o carro estava estacionado, ela pegou a chave no bolso e me entregou. Isso não era nada típico dela, sempre que saíamos juntas quem dirigia o carro era ela, e essa atitude me fez pensar que realmente ela não deveria estar se sentindo muito bem, e sinceramente, comecei a ficar realmente com medo de descobrir o motivo que estava por trás disso tudo. Será que eu estou ficando paranoica? Acho que não!

_ Paula, o que esta acontecendo? - perguntei assim que ela fechou a porta do carro.
_ Só não estou me sentindo bem! - respondeu com a voz um pouco engasgada. 
_ Você sabe tão bem quando eu que não consegue me enganar fácil assim. Malefícios do matrimônio Paula! 
_ Podemos conversar em casa, pelo menos?!
_ Ok. Então estamos admitindo aqui que algo esta acontecendo e que você não esta querendo me contar. Correto? 
_ Não. Eu apenas não estou bem. Preciso de um banho e deitar um pouco!

Resolvi não tentar continuar a conversa até chegarmos em casa, e assim que entramos Paula foi diretamente para o banheiro, dizendo que precisava de um banho. Pouco tempo depois que ligou o chuveiro, seu celular tocou insistentemente dentro da bolsa. Juro que não sou de fazer esse tipo de coisa, não gosto MESMO de bancar a esposa loucamente ciumenta, muito menos ficar xeretando as coisas da Paula, mas, de verdade o toque do celular começou a me tirar do sério, poxa já era mais de 1h, isso era hora de alguém ligar? Assim que peguei o aparelho ele parou de tocar, e no histórico de ligações perdidas constavam 5 ligações daquela tal de Patricia. Se ela e a demora da Paula do banheiro já estavam me causando uma terrível dor de estômago, nesse momento as dores se espalharam por outras partes do corpo.

Fiquei um tempo parada com o celular na mão, olhando aquele nome nas chamadas perdidas, procurando identificar um motivo logicamente bom o suficiente para explica-las. Infelizmente nada de muito interessante me vinha a mente. Assim que Paula abriu a porta do banheiro, terminando de vestir seu roupão, chegou uma mensagem de texto. Ela olhou para mim e viu que o celular estava comigo. Sua expressão assumiu um tom misto de preocupação e desespero que me atingiu como um soco no estômago! 

_ O que é que eu vou ler se abrir essa mensagem da Patricia, que você acabou de receber?
_ Eu não sei o que você vai ler. Mas, porque você esta com meu celular? 
_ Porque Paula? Porque sua "coleguinha de trabalho" estava ligando incessantemente enquanto você tomava banho! Sinto muito, mas isso não é hora, e essa droga de toque estava realmente me irritando. Agora me responda, o que é que eu vou ler assim que abrir essa mensagem? 
_ Eu não sei Letícia!!! Como vou saber? 
_ Ok, vamos descobrir então! - falei enquanto erguia o aparelho para poder ler a mensagem.
_ Você não acha que esta invadindo minha privacidade se fizer isso? 
_ E você não acha que esta tentando me fazer de otária na minha cara? Paula, o que estará escrito aqui nessa mensagem? 
_ Abra e leia então Letícia. Eu já disse que não sei! - ela disse, com a voz falhando em uma ou duas palavras.

Cliquei para abrir a mensagem e pelo cantinho do olho pude ver quando Paula sentou-se na cama, e abaixou a cabeça. Na mensagem, o texto era vago, porém, comprometedor. Li em voz alta: "Precisamos conversar sobre o que aconteceu hoje. Me liga assim que puder, por favor! Bjs, Paty".

O silêncio foi mortal. E depois de alguns minutos, já não aguentava mais a agonia que estava sentindo. Sentei do lado da Paula, na beira da cama. Não queria mais perguntar, não queria mais saber. Tinha medo das respostas que poderia obter, eu não podia estar vivendo aquilo. Aquilo tudo devia ter uma explicação plausível. Não podia ser nada do que eu estava imaginando! Me virei para ela, coloquei minha mão sobre a sua e senti meus olhos se encherem de lágrimas. Pisquei forte, a fim de contê-las. Eu tinha que manter a calma. Aquilo não podia ser real. Abri os olhos novamente e olhei para Paula, as lágrimas lhe desciam sob a face... Meu corpo todo gelou, o ar me faltou, o chão já não estava mais sob meus pés, e mesmo com a voz falhando e o coração já despedaçado, consegui fazer a pergunta da qual eu não queria ouvir a resposta.

_ Paula... O que... O que foi que aconteceu?
_ Amor, me perdoa! Me perdoa! Pelo amor de Deus! 
_ Você... Você me traiu? 
_ Ela me empurrou para dentro do banheiro, nós nos beijamos. Foi um beijo. Eu não sei como isso foi acontecer Letícia, eu te amo! Eu não posso te perder... Não significou nada para mim! Eu disse a ela que não podia fazer isso... Me perdoa!!! - disse inclinando-se para me abraçar. Me esquivei de seu abraço e levantei da cama.
_ Sai de perto de mim Paula! Agora! - Ela levantou da cama, num pulo.
_ Não faz isso. Por favor Letícia! Eu errei, mas isso não muda o fato de te amar acima de todas as coisas. Você é tudo pra mim. Por favor, não faz isso. 
_ Paula sai daqui. Agora! Eu preciso pensar... Agora! Por favor! - disse empurrando-a para fora do quarto, e ela saiu sem relutar muito. 


Voltei a sentar na beira da cama. Abracei meus joelhos, querendo sumir. Apenas desaparecer. Ou apenas acordar, e me dar conta de que aquilo tudo não tinha passado de um pesadelo! Mas, não... Era real, e essa realidade me doía no peito, no coração, na alma! Deixei meu corpo cair na cama e chorei. Apenas chorei. Não conseguia ter forças para mais nada naquele momento, só chorei.